I n c ê n d i o
...Sentas-te e debruças-te para o caderno de capa preta. O silêncio arde por toda a casa. Abres o caderno onde sepultaste, há dias, umas quantas palavras. E ao abri-lo caem as imagens sobre a mesa. O caderno volta a ficar branco - o caderno, a nocturna memória do mundo, a vida. Tudo branco como a morte.
Nenhum corpo cresce, nenhuma sílaba ficou esquecida no papel, nenhum eco do coração.
Sentado, como se estivesses sentado sobre o mar, escutas o lento bater nos confins dos ossos. Mas já nada tremula na luminusidade plúmbea do dia. Nada se acende, ou apaga, nos céus.
O dia afoga-se, lentamente, na treva do mar.
Deitas-te, então, ao lado do morto que ainda não és. E dele se liberta um anjo mudo que vem habitar o teu corpo.
A vida, como sabes, tem o tempo da areia que se escapa por entre os dedos. Areia rápida e branca. Esvoaçante.
Agora, a ausência - a tua - é um rosto silencioso. E a tua mão está enterrada no tesouro das horas.
Finges dormir para que a dor não deixe rastro no sangue. Nada se move dentro ou fora de ti, excepto o vento no interior dos ossos...
Corpo aéreo, azulínea música rente à claridade da pele...
(...)
AL Berto



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