e s t i l h a ç o s
na seiva das horas nocturnas
os segundos emaranham o tempo pela solidão do corpo
prendem-no nos sulcos onde o rosto escava o finito
nas suas densas camadas de melancolia
que por vezes um sorriso comporta a estibordo dos lábios
na vasta profundidade da noite
o corpo espera que esta seja limpa
imobilizado no fundo de uma palavra
repetindo-a inúmeras vezes, vezes
até a despir do seu sentido efémero
até que esta se quebre na boca como vidros estilhaçados
cortando-nos, todo o seu sentido
ninguém,
ninguém pernoita a sua sombra nos braços deste corpo
desta palavra que é corpo bruto emaranhado no tempo vicioso
um corpo viciado na distância que só a solidão aumenta
em silêncio despenha-se a noite e com ela os ruídos do cio
que emergem da plúmbea curvatura da luz aluada
escorrendo como um ser possuído no corpo sequioso
debruçado a escavar as palavras removendo-lhes as entranhas
para ver do que são feitas as palavras
bebendo-as e cuspindo
as palavras que estão mortas
nelson d’aires



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