Sunday, October 12

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Quem, se eu gritar
me concede
a profundeza inversa deste céu
que ao fim da tarde
eu vejo da minha janela
contemplando os anjos
que as nuvens imitam?






Alguém me ouve se eu gritar?


Oiço vozes
mas são vozes inventadas
porque é inútil perscrutar o silêncio
e por isso vos reinvento
a cada pancada do meu coração
a cada pancada surda
que não repercute
no ímpeto claro do vosso desenho fantástico
no alado lado da vossa impossibilidade.

Se eu gritar
.......... alguém me ouve
............................. em todas estas coisas?





Nenhum anjo
escuta o meu grito
que não penetra a noite
e só encontra o eco de nenhum desejo


E lançado de meus braços o desejo
não invejo
admiro
a sofucante beleza deste ocaso
cheio de nuvens velocíssimas
e tudo o que eu sinto
é tão imenso

como este ocaso
dantesco
tiepolesco
wagneriano
que eu contemplo
doente do excessivo amor do que é belo
que me afoga
na sua imensidão aérea





E tão fortuitamente criado pelo vento
e pela terra que se inclina
este ocaso laranja sobre azul
esplêndido e kitsch
é tão impermanente
como vós
nuvens-anjos que me arrebatais
com vossos incêndios imensos e falsos
ilusão de óptica que me fascina e oprime





Encostada à minha janela
contemplo a vossa beleza
que a todo o instante
se faz e se desfaz
até o chumbo da sombra avançar
e aos poucos surgir a noite
........................... antiga e idêntica sempre
lançando-me em vossos braços
vazios
........... cheios só de vozes
.......................................... inaudíveis'



poema de Rilke e fotografias da série 'my intuitive theatre' de Pavel Pecha

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