'
Mat I Syn, Aleksandr Sokurov
'Absoluta poesia onde os planos rígidos, fixos, atingem a beleza de quadros de Vermeer, Rembrandt ou Van Gogh. O movimento muitas vezes insiste na ilusão visual, alude para as diversas possibilidades da pintura e para o reconhecimento do nosso olhar, percorrendo a imaginação: quando surge o comboio lá ao fundo, vêmo-lo como o imaginaríamos a falsificar o movimento num quadro. Toda a filiação onírica de Mãe e Filho remete-nos para o próprio local de encontro das duas personagens, tão bem explícito no início como no fim do filme. O som tem uma vida própria na inércia dos planos, reconstruindo toda o ambiente em volta, oferecendo-lhe o seu próprio movimento. Tive a sensação de que é ele que confere movimento ao filme e o torna como tal e não num imenso quadro. O som enriquece o silêncio das vozes, inutilizando o inexistente, o vazio. O melhor exemplo que encontro é num dos últimos planos: enquanto o filho chora encostado a uma árvore, ouvimos uma voz feminina – maternal – a cantar e durante esta paralisia, vi um rosto de sombras desenhado nessa mesma árvore, que mexia os lábios ao som da música. Mãe e Filho é um filme dotado de um tacto com olhos, como se fosse possível moldarmos o que vemos ou moldarmos ao vermos.'
André Santos in Nocturno 76
Mat I Syn, Aleksandr Sokurov
'Absoluta poesia onde os planos rígidos, fixos, atingem a beleza de quadros de Vermeer, Rembrandt ou Van Gogh. O movimento muitas vezes insiste na ilusão visual, alude para as diversas possibilidades da pintura e para o reconhecimento do nosso olhar, percorrendo a imaginação: quando surge o comboio lá ao fundo, vêmo-lo como o imaginaríamos a falsificar o movimento num quadro. Toda a filiação onírica de Mãe e Filho remete-nos para o próprio local de encontro das duas personagens, tão bem explícito no início como no fim do filme. O som tem uma vida própria na inércia dos planos, reconstruindo toda o ambiente em volta, oferecendo-lhe o seu próprio movimento. Tive a sensação de que é ele que confere movimento ao filme e o torna como tal e não num imenso quadro. O som enriquece o silêncio das vozes, inutilizando o inexistente, o vazio. O melhor exemplo que encontro é num dos últimos planos: enquanto o filho chora encostado a uma árvore, ouvimos uma voz feminina – maternal – a cantar e durante esta paralisia, vi um rosto de sombras desenhado nessa mesma árvore, que mexia os lábios ao som da música. Mãe e Filho é um filme dotado de um tacto com olhos, como se fosse possível moldarmos o que vemos ou moldarmos ao vermos.'
André Santos in Nocturno 76



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