Thursday, October 30

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14 de Janeiro

todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetecia ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem priveligiado, ouço o mar ao entardecer, ue mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado, nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.


Al Berto

Wednesday, October 29

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mergulho na melancolia da noite com o desejo de que se apaguem os instantes recentes da alma.
a madrugada insone aproxima-se, delineando pressagios das assustadoras deambulações oní­ricas que hão-de vir...
a inutilidade deste respirar usado vai retalhando a alma, numa soma de frustrações às quais a carne se suplanta.
através da vertiginosa noite, os pés - descalços - sangram, sob as abismais chamas, a infindável impureza do olhar...
que inoprimivel vontade de me desfigurar. cravar indiziveis sulcos na cara e jamais deixar que me reconheçam. ou que me reconheça a mim mesma.


foto de François Brumas

Tuesday, October 28

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´como não tenho lugar no silêncio onde morrem as gaivotas,
despeço-me no oceano e deixo que o céu me conheça.
talvez a serenidade possa ser as minhas mãos a serem uma
brisa sobre a terra e sobre a pele nua de uma mulher.
esse dia, esperança de amanhã, poderá chegar e estarei dormindo,
hoje, sou um pouco de alguma coisa, sou a água salgada
que permanece nas ondas que tudo rejeitam e expulsam
na praia. as gaivotas sobrevoam o meu corpo vivo. os meus
cabelos submersos convidam o silêncio da manhã, raios de sol atravessam
o mar tornados água luminosa. aqui, estou vivo e sou alguém
muito longe.'


texto de José Luís Peixoto e foto 'Sound of silence' de Ilkka Keskinem


Saturday, October 25




Bruno Espadana

Thursday, October 23




Em Estado Puro

Numa das esculturas de Giacometti, tocadas ainda de fogo, um homem caminha, em movimento solitário e eterno. Não sabemos se entra, se sai da morte, mas conseguimos reconhecer, na nobreza do cobre, a própria condição humana. Como benção ou danação, o escultor devolve-nos a vida em estado puro.
Viver é também isso. Percorrer um campo de anémonas quase com vergonha do que trazemos escondido, na mão.


in 'O vento da Noite' de Mário Rui de Oliveira


Tuesday, October 21

'I wouldn't shut your eyes just yet
I wouldn't turn the lights down yet
`Cos there's things you've gotta see here
There's things you've gotta believe of me'





DANCING

I understand everything
I understand everything

Take me in your arms
You knew how I feel
Before I knew, I was up to my neck
First time we danced
So I'll tell you what brought you home tonight
So, you're back, what brought you home?
Oh, the dancin'

Take me in your arms
You knew how I feel

Running home
I couldn't wait to be inside you then
You were all around me then
So, is that what brought you home tonight
Do you know what brought you home tonight?
Was it the dancin'?

Before I knew, I was up to my neck
The last toe leaving ground
First time we danced





t r o u b l e . e v e r y . d a y


Monday, October 20

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s u s s u r r o . d e . m a r



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foto de Luis Farrolas...




hoje, mais que tudo, queria estar noutro lado que não este.


que saudades de mar...


Sunday, October 19

Deambulações pela festa do cinema francês...










Saturday, October 18




Thursday, October 16







'Há que criar uma imagem do nosso medo e chamar-lhe Deus...'









Wednesday, October 15



'entre nós e as palavras há metal fundente...'


foto tirada no catacumbas jazz bar










publicado pl'Os fazedores de Letras...

Tuesday, October 14




Monday, October 13

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'A poesia nao me pede propriamente uma especializaçao pois a sua arte é uma arte do ser. Tambem nao é tempo ou trabalho que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransiigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma tunica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinaçao sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala nao de uma vida ideal, mas de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tilia e do oregão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especializãção, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz 'obscuro', 'amplo', 'barco', 'pedra' é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas estéticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sa realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o 'obstinado rigor' do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equili­brio das palavras entre si é o equili­brio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.'


Sophia de Mello Breyner Andersen 'Arte Poética II'





Sunday, October 12

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Quem, se eu gritar
me concede
a profundeza inversa deste céu
que ao fim da tarde
eu vejo da minha janela
contemplando os anjos
que as nuvens imitam?






Alguém me ouve se eu gritar?


Oiço vozes
mas são vozes inventadas
porque é inútil perscrutar o silêncio
e por isso vos reinvento
a cada pancada do meu coração
a cada pancada surda
que não repercute
no ímpeto claro do vosso desenho fantástico
no alado lado da vossa impossibilidade.

Se eu gritar
.......... alguém me ouve
............................. em todas estas coisas?





Nenhum anjo
escuta o meu grito
que não penetra a noite
e só encontra o eco de nenhum desejo


E lançado de meus braços o desejo
não invejo
admiro
a sofucante beleza deste ocaso
cheio de nuvens velocíssimas
e tudo o que eu sinto
é tão imenso

como este ocaso
dantesco
tiepolesco
wagneriano
que eu contemplo
doente do excessivo amor do que é belo
que me afoga
na sua imensidão aérea





E tão fortuitamente criado pelo vento
e pela terra que se inclina
este ocaso laranja sobre azul
esplêndido e kitsch
é tão impermanente
como vós
nuvens-anjos que me arrebatais
com vossos incêndios imensos e falsos
ilusão de óptica que me fascina e oprime





Encostada à minha janela
contemplo a vossa beleza
que a todo o instante
se faz e se desfaz
até o chumbo da sombra avançar
e aos poucos surgir a noite
........................... antiga e idêntica sempre
lançando-me em vossos braços
vazios
........... cheios só de vozes
.......................................... inaudíveis'



poema de Rilke e fotografias da série 'my intuitive theatre' de Pavel Pecha

Saturday, October 11




'Talvez um dia se atinja a redução do pensamento
pela mediação do ventoE será essa a mais preciosa economia
O osso vibrará em consonância com o músculo
O joelho e o ombro serão um só adágio

Bastará a mão na página
para que uma ave branca siga a linha azul
As incertezas terão o frémito das folhas
A obscuridade será um oboé saindo do lodo
Um gafanhoto sobe a mesa restabelecerá o estatuto do universo

A melancolia do ouvido a estranheza da visão
em entrelaçadas estrelas líquidas
beberão a alma da solidão como uma linfa branca
e os fulvos frutos da terra estarão unidos
num indisível acorde'



'The Shelter' by Jan Saudek

Friday, October 10




Wednesday, October 8




'Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro do silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para ao pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grande terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes londe e perto,
E que doem por sagermos que nunca realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilhe
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida é pequena,
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.

Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Ebúrnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que nunca verei,
Ao Oriente Budista, Bramânico, Sintoísta,
Ao Oriente que é tudo o que nós não temos,
Que é tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde - quem sabe? - Cristo talvez ainda hoje viva,
onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...

Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso de fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coias que se agitam muito!

Vem, cuidadosa,
Vem, material,
Pé ante pé enfermeira entiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés jáperdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.

Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa ne tarde leve,
Tranquilamente como um gesto materno afagando,
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar,
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.


Álvaro de Campos

Tuesday, October 7

Gustav Klimt



'Será feita de aves a primeira sensação da manhã
ser-nos-ão concedidos os dons do voo e do sonho permanente
juntos descobriremos a fonte do nocturno bosque
e a sabedoria do estritamente necessário
despojar-nos-emos dos corpos
dos objectos acumulados na memória

do sonho e do ouro utópico chegará a metamorfose
o tempo será rigorosamente prolongado a cada enxertia dos pomares
da mesma árvore derramar-se-ão frutos diferentes quando os duas se tornarem mais nítidos

o regresso é demorado
avança manhã adiante
com o crescimento das mãos e da sageza'


em Tentativas para um regresso à Terra de Al Berto

Monday, October 6




'horses in my dreams... like waves, like the sea...'


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'Dream' by Ilkka Keskinem


Saturday, October 4

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'one million ways to burn... choose one.'


Friday, October 3




o festival de cinema francês está ás portas, e o forum fnac do chiado vai passar François Ozon:

-Sitcom
-Gouttes d'eau sur pierres brûlantes
-les amants criminels

no forum fnac do colombo, já a partir de dia 7 começa o ciclo Ingmar Bergman, contando com os seguintes filmes:

-Fanny e Alexandre
-sonata de outono
-sétimo selo
-em busca da verdade
-morangos silvestres

para datas e afins, vasculhem aí nos links deambulatórios...


Wednesday, October 1

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le soleil est prés de moi...